Sabem aquela sensação de viver a pisar ovos?
Sinto que passei 35 anos da minha vida assim.
Até ao dia em que soltei um grito de basta.
Algo em mim despertou. Uma necessidade imensa de me segurar com toda a força do meu corpo, de me escolher, de deixar de sobreviver e começar, finalmente, a viver.
Algo em mim grita luz. Esperança. Sabedoria.
Algo em mim grita paz.
Algo em mim grita oxigénio. Porque, meu Deus... como eu preciso de respirar.
Já me perguntaram muitas vezes se sou feliz.
E a resposta é mais difícil do que parece.
Eu posso sentir-me feliz e, ainda assim, não ser feliz. E talvez essa seja uma das maiores partidas que a mente humana nos prega.
Sinto-me feliz em muitos momentos. Rio. Emociono-me. Agradeço. Mas ainda não sou feliz.
Porque a felicidade não é uma coleção de momentos bonitos, de sorrisos rápidos ou de dias em que tudo corre bem. A felicidade é um estado de fundo. É uma estrutura. É a paz de saber que a tua vida está alinhada com a tua dignidade.
Passei três anos a colecionar momentos em que "estava" feliz, enquanto a minha alma sabia que eu não "era" feliz naquele lugar.
Ainda me falta tanto caminho para chegar à felicidade.
E, mesmo assim, olho para trás sem arrependimento.
Foram 35 anos bem vividos.
Construí uma família. E também a desfiz. Guardei o melhor no meu coração. O resto não é mau. É aprendizagem.
Apaixonei-me perdidamente por alguém que me mostrou o melhor da vida, mas também o pior. Conheci o amor, a paixão e a entrega. Mas conheci também a toxicidade, o desespero e o medo. Tudo na mesma pessoa.
Aprendi muito. Talvez mais do que alguma vez consiga explicar. Ninguém imagina o quanto a vida me ensinou nestes últimos três anos.
Mas, acima de tudo, vivi diante de um espelho.
As relações mais difíceis da nossa vida não aparecem por acaso. Não são um erro. São um espelho, muitas vezes cruel.
Foi nele que vi os meus medos, as minhas angústias, as minhas feridas e os meus traumas.
E foi nele que percebi que passei demasiado tempo à procura, nos outros, daquilo que sempre me faltou encontrar em mim.
Hoje entro oficialmente numa nova fase da minha vida.
A fase em que já não quero sobreviver às batalhas.
Quero vencê-las.
Quero deixar de viver no meio da guerra e começar, finalmente, a construir paz dentro de mim.
Porque acredito que a verdadeira felicidade começa exatamente aí.