quarta-feira, 1 de julho de 2026

O Inferno Confortável

Escolhi ficar mesmo quando o mundo chorava a minha decisão.


Escolhi o conforto do conhecido. Conheci os cheiros das ruas, os olhares das pessoas, os sons dos vizinhos, como o vento assentava levemente nas nossas cadeiras da varanda. O lugar onde eu mais gosto de estar, a pensar, a ler, a escrever.


O conhecido é sempre aquele que a nossa mente nos guia em primeiro lugar. Até porque é sempre mais fácil sentir a dor do conhecido do que o medo do desconhecido.


Durante demasiado tempo vesti o papel de salvadora (não sei se tem algo a ver com o nome do meu filho), mas sempre quis ser a filha que ajuda, a irmã que está sempre lá, a amiga que escuta, a mãe que ampara e a companheira que segura. 


Dou-me por inteira quando amo, e não poderia ser de outra forma. Não sei amar de outra forma.

Os teus problemas são os meus problemas.


Sempre acreditei que a minha forma de cuidar, a minha forma de amar , a minha presença, iria salvar o mundo.


Mas no fim, quem me iria salvar a mim ?


Quando percebi que ter escolhido a dor do conhecido me destruía, não existiu ninguém para além de mim para me salvar.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Carta de Desculpas à Mulher que Deixei de Ser

 Desculpa...


Desculpa por te dar o poder da sobrevivência nas tormentas do mar.

Desculpa por te dar a liberdade de escolher o lugar onde o calor do teu coração queimava na dor.

Desculpa ter-te deixado mergulhar nas tuas próprias lágrimas na esperança que o nadador-salvador fosse o mesmo que te afogou.

Desculpa deixar-te acreditar que o amor pode ter realmente de todas as cores, quando sempre gostaste do preto.

Desculpa causar-te dor, aquela dor que dilacerou o teu coração vezes sem conta.

Desculpa fazer-te acreditar que és forte todos os dias.

Desculpa ter-te tirado o colo. Mas desculpa, acima de tudo, ter-te deixado sentar no trono de espinhos que pensavas ser o mais confortável.

No fundo eu acredito que tu és forte. Que és resiliente. Que acreditas. Que tens esperança. Que lutas. Que sobrevives.

Mas há dias que precisas de colo, e precisas de ser tu a cuidada.

Vamos sair desta juntas.

De mãos dadas.

Mais fortes do que antes.


Afinal isto foi apenas mais uma aprendizagem.


Já sobrevieste a várias tempestades não já ?