Há uma ideia errada de que, quando finalmente encontramos a paz, as cicatrizes desaparecem como por magia. A verdade é que a vida não é um morango, e curar não significa apagar o que lá esteve, significa aprender a conviver com os escombros enquanto construímos algo novo por cima.
Durante muito tempo, habituei-me a viver em estado de alerta. A carregar o peso de dores antigas, de relações que se desgastaram e de desilusões que deixaram marcas fundas no corpo e na alma. O meu sistema nervoso aprendeu a antecipar o golpe. Aprendi a duvidar de tudo o que era leve, porque a leveza, no meu passado, vinha sempre acompanhada de uma rasteira.
É por isso que, quando a felicidade finalmente bate à porta e nos traz uma calma genuína, o choque é quase violento.
O paradoxo mais doloroso de quem já sofreu é a nossa própria capacidade de boicotar a alegria. Estás ali, a rir a desatar, a sentir o corpo seguro, a receber um carinho que nunca tinhas tido, e, de repente, no meio da gargalhada mais sincera... o medo instala-se. Os fantasmas do passado espreitam pela frincha da porta e sussurram: "Isto é bom demais para ser verdade. Onde é que está a apanhar a curva?"
E o sorriso congela. As lágrimas voltam, não porque o presente seja mau, mas porque o peso da memória tenta convencer-te de que não tens direito a ficar descansada. É uma autossabotagem cruel. O medo de que a dor regresse faz-nos recusar a paz, como se estivéssemos a tentar antecipar o sofrimento para que ele doa menos quando, na nossa cabeça, tudo desabar.
Mas desabar porquê?
Reerguer-se exige uma coragem absurda. Não é a coragem de fingir que nada aconteceu, mas sim a coragem de olhar para o novo com o peito aberto, mesmo quando as mãos tremem e o eco do passado tenta puxar-nos para trás. É aceitar que se pode ter medo e, ainda assim, decidir ficar. É perceber que a ansiedade que surge não é um aviso de perigo, mas apenas o fantasma de uma velha dor a tentar assustar uma nova história que está a nascer.
A vida não é um morango. Tem espinhos, tem nódoas, tem dias em que o passado nos pesa nos ombros. Mas tem também a beleza imensa de conseguir desarmar as defesas quando menos esperamos. Tem a surpresa de um abraço que não aperta para sufocar, mas para encaixar. Tem a coragem de dizer "sim" ao futuro, mesmo com o coração a dar pulos descompassados.
Se hoje o medo voltar, vou deixá-lo sentar-se à mesa, mas não o vou deixar conduzir. Porque aprendi que mereço a paz que agora sinto. E que reerguer-se também é isto: dar o braço a torcer à felicidade e deixar-se, finalmente, cuidar.
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