Há uma pergunta terrível que, mais tarde ou mais cedo, ecoa na cabeça de quem já foi muito magoado: «O que é que eu tenho de errado para ter de sofrer sempre?»
Carregamos cicatrizes profundas, colecionamos desilusões e, sem darmos por isso, construímos uma armadura tão pesada que começamos a confundir a proteção com a prisão. O nosso sistema nervoso aprende a antecipar o golpe. Habituamo-nos tanto a esperar a rasteira que, quando a vida nos dá tréguas e nos coloca à frente alguém bom, o nosso cérebro entra em pânico. Não sabemos lidar com a paz. A calmaria assusta-nos mais do que a tempestade, porque a tempestade nós já conhecemos de cor, sabemos exatamente como se sobrevive a ela.
O paradoxo mais cruel de quem traz feridas por sarar é a nossa capacidade inata de autossabotagem. É estarmos a viver um momento bonito, a sentir o corpo seguro, a receber um carinho genuíno e atencioso, daqueles que cuidam dos pequenos detalhes, que tiram o peso dos nossos ombros e, de repente, no meio de um sorriso, o medo instala-se.
É aí que cometemos o erro mais injusto de todos para com quem está connosco hoje começamos a pagar a conta de um restaurante onde nunca comemos.
Pegamos nas marcas deixadas por quem nos feriu no passado, nas traições, nas negligências e nas dores que não escolhemos sentir, e secundamos tudo isso num novo amor. Olhamos para alguém que nos estende a mão sem segundas intenções e exigimos que essa pessoa pague pelos pecados de um estranho que já lá vai. Julgamos o presente com base nas ruínas do ontem.
As lágrimas que caem nesses momentos de pânico não são sobre a pessoa que está ao nosso lado. São sobre o terror visceral de voltarmos a ser vulneráveis. É o medo de nos entregarmos inteiras e de, logo a seguir, descobrirmos que o chão afundou.
Mas a verdade, aquela que custa a aceitar mas que liberta, é que nós não temos nada de errado.
Não sofremos porque temos "defeito", nem porque atraímos a desgraça, nem porque há algo em nós que mereça o sofrimento. Sofremos simplesmente porque amamos com profundidade e nos entregamos inteiras, sem redes de proteção. O nosso erro nunca foi amar, foi termos ficado demasiado tempo a normalizar o que nos feria e a carregar a culpa pelo comportamento dos outros.
Quem nos magoou no passado fê-lo por incapacidade deles, não por falha nossa. E carregar essa culpa para uma nova história é condenar à nascença algo que pedia apenas para respirar.
Reerguer-se não é apagar o passado nem fingir que as cicatrizes não existem. É reconhecer que o medo vai lá estar, a tremer num canto, mas recusar dar-lhe o volante. É olhar para quem nos trata bem e ter a coragem de dizer a nós próprias: «Tu mereces isto. Podes descansar.»
O passado já cobrou o que tinha a cobrar. Agora, o que merecemos é aprender a saborear a paz, sem inventar tempestades onde o sol finalmente decidiu nascer.
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